Política do medo: Lula e Flávio Bolsonaro recorrem a alertas sobre riscos e perdas na disputa pelo segundo turno


A disputa presidencial de 2026 entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) colocou a chamada política do medo no centro das estratégias eleitorais. Desde o início da campanha até a chegada ao segundo turno, os dois campos políticos passaram a utilizar mensagens que alertam para possíveis consequências de uma vitória do adversário, envolvendo programas sociais, direitos trabalhistas, economia, segurança pública, democracia e combate ao crime organizado.

A utilização do medo como estratégia eleitoral não é exclusiva da esquerda ou da direita. Nas campanhas anteriores, especialmente na disputa entre Lula e Jair Bolsonaro em 2022, os dois grupos já haviam explorado receios relacionados ao futuro do país. Em 2026, a estratégia voltou a aparecer, agora na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, com acusações, previsões e mensagens destinadas a mobilizar eleitores e ampliar a rejeição ao adversário.

No campo petista, a campanha passou a explorar o receio de que uma vitória de Flávio Bolsonaro provoque mudanças em programas sociais e direitos da população. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em outubro, a estratégia de Lula para o segundo turno incluía alertar sobre possíveis perdas em benefícios sociais e mudanças nas regras de reajuste das aposentadorias. A avaliação da campanha era de que seria necessário mostrar aos eleitores o que poderia mudar com a chegada de um novo governo.

O programa Farmácia Popular tornou-se um dos principais exemplos dessa abordagem. Em publicações, aliados de Lula, incluindo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, alertaram que o programa poderia estar ameaçado caso Flávio fosse eleito. O argumento utilizado foi que o plano de governo do senador não mencionava expressamente a continuidade da iniciativa. Flávio, por sua vez, negou a intenção de acabar com o programa e classificou as acusações como falsas.

A campanha petista também questionou o plano de ajuste fiscal apresentado por Flávio, afirmando que possíveis cortes de despesas poderiam prejudicar programas como Pé-de-Meia, Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida, merenda escolar e subsídios para o gás. O senador rebateu as críticas, acusou o PT de divulgar informações falsas e afirmou que pretende reajustar as aposentadorias do INSS acima da inflação.

A discussão mostra como o medo de perder benefícios conquistados pode ser utilizado para mobilizar eleitores. Entretanto, a ausência de uma menção expressa a determinado programa em um plano de governo não comprova, por si só, que ele será encerrado. Da mesma forma, a existência de uma proposta de ajuste fiscal não significa automaticamente que todos os programas citados serão afetados. Para confirmar essas possibilidades, é necessário examinar as medidas propostas, os valores envolvidos e as decisões que dependeriam de aprovação do Congresso Nacional.

Durante a campanha, Lula também elevou o tom das críticas ao adversário, mencionando o governo de Jair Bolsonaro, a condução da pandemia de Covid-19 e o risco de retrocessos políticos e sociais. O presidente e seus aliados passaram a comparar políticas dos governos petistas e bolsonaristas, utilizando temas como educação, salário mínimo, Bolsa Família, direitos trabalhistas e jornada de trabalho para argumentar que uma vitória de Flávio poderia representar perdas para parte da população.

Ao recorrer a esse discurso, a campanha petista utiliza acontecimentos do passado e previsões sobre o futuro para alertar os eleitores. As críticas ao governo anterior fazem parte do debate político, mas as afirmações de que determinadas perdas necessariamente ocorreriam precisam ser confrontadas com as propostas oficiais e as declarações dos candidatos.

Do lado de Flávio Bolsonaro, a estratégia também utiliza alertas sobre o futuro do país, mas com ênfase na necessidade de mudança. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo publicada em outubro, uma peça de propaganda eleitoral do senador repetiu a palavra “mudança” 22 vezes em cinco minutos. O material contou com referências a aliados como Ronaldo Caiado e Romeu Zema e destacou a presença de políticos de direita no Congresso Nacional.

Entre as propostas apresentadas por Flávio estão o fim da reeleição presidencial, o endurecimento das medidas contra facções criminosas e milícias, a construção de presídios federais e alterações na política econômica. Na área trabalhista, o senador defende maior flexibilidade nas relações entre empresas e trabalhadores, redução de custos para contratação formal e mudanças na relação com os sindicatos.

A mensagem de mudança funciona como contraponto à narrativa petista de que a eleição de Flávio colocaria em risco benefícios e direitos. Enquanto Lula procura destacar o que poderia ser perdido com a troca de governo, Flávio enfatiza o que, em sua avaliação, precisa ser transformado no país. Entretanto, defender mudanças não comprova, por si só, que o governo atual representa uma ameaça, assim como alertar para possíveis retrocessos não significa que todos eles necessariamente ocorreriam.

A segurança pública também se tornou um dos principais pontos de confronto. Em outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a remoção de publicações de Flávio Bolsonaro na rede social X que utilizavam inteligência artificial para simular Lula em uma situação que não aconteceu e associavam o presidente a organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). A decisão foi tomada após questionamentos apresentados pela Federação Brasil da Esperança, liderada pelo PT.

Em outro episódio, o TSE determinou a remoção de um vídeo publicado pelo Partido Liberal (PL) no Instagram que associava Lula a uma facção criminosa e utilizava inteligência artificial para simular sua imagem. As decisões mostram como o tema do crime organizado foi incorporado à disputa eleitoral e como a Justiça Eleitoral interveio em conteúdos considerados irregulares.

Associar um adversário a organizações criminosas pode provocar forte reação entre os eleitores, mas uma associação feita em propaganda não constitui, por si só, prova de vínculo criminoso. Nesses episódios, a Justiça Eleitoral determinou a retirada dos conteúdos questionados, o que precisa ser distinguido de uma conclusão geral sobre todas as mensagens divulgadas pelas campanhas.

No campo petista, o deputado federal André Janones (Rede-MG) ganhou destaque ao organizar o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que reuniu milhões de seguidores. A iniciativa passou a ser utilizada para mobilizar apoiadores e ampliar a circulação de conteúdos favoráveis ao presidente. O canal foi temporariamente suspenso por decisão judicial após questionamentos da campanha de Flávio. Posteriormente, o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, autorizou seu funcionamento após o registro oficial exigido, com determinação de monitoramento das publicações.

O episódio provocou novas acusações entre os grupos políticos. Aliados de Lula criticaram as decisões judiciais, classificando-as como censura e restrição à mobilização política, enquanto a campanha de Flávio apresentou questionamentos sobre o conteúdo divulgado. O caso evidencia que a disputa não ocorre apenas nos palanques e nos programas eleitorais, mas também nas redes sociais, onde mensagens alarmistas e acusações podem alcançar milhões de pessoas em pouco tempo.

Outra situação relatada pela Folha de S.Paulo envolveu perfis favoráveis a Flávio Bolsonaro que incentivaram a identificação, a exposição e a denúncia de brasileiros residentes no exterior que declararam apoio a Lula. Segundo a reportagem, eleitores na Coreia do Sul, no Japão, na Bélgica e na Polônia foram alvo de publicações, e duas brasileiras na Polônia sofreram ataques depois de manifestarem apoio ao petista.

Uma campanha intitulada “De volta para minha terra” incentivou denúncias contra esses eleitores. O eurodeputado Dominik Tarczyński, aliado da família Bolsonaro, defendeu a deportação de brasileiras com base em leis polonesas relacionadas à promoção de regimes comunistas, embora a reportagem informasse que não havia evidências de que elas tivessem promovido esse tipo de regime. A publicação não apresentou provas de que a campanha oficial de Flávio Bolsonaro ou Eduardo Bolsonaro tivesse organizado diretamente essas ações. Por isso, é necessário distinguir as iniciativas de perfis favoráveis ao senador de atos comprovadamente realizados por sua equipe oficial.

A economia e os direitos trabalhistas também passaram a ocupar espaço importante no confronto. Lula defende a preservação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o fortalecimento dos sindicatos, a regulamentação do trabalho por aplicativos e a ampliação do descanso semanal remunerado. Flávio prioriza a flexibilização das relações de trabalho, a redução dos custos de contratação e maior liberdade para acordos individuais. Os dois grupos apresentam visões diferentes sobre o papel do Estado, a proteção social, o funcionamento da economia e as relações entre trabalhadores e empregadores.

Essas diferenças precisam ser debatidas com base nas propostas efetivamente apresentadas. A política do medo aparece quando os possíveis efeitos de uma medida são apresentados como consequências inevitáveis sem explicação suficiente sobre sua implementação. Para avaliar as mensagens, é necessário identificar quais mudanças foram propostas, quais dependem do Congresso, quais têm respaldo em dados e quais representam interpretações dos adversários.

Os episódios documentados mostram que os dois campos utilizam mensagens sobre riscos e perdas para tentar mobilizar eleitores. A campanha de Lula destaca o receio de cortes em programas sociais, mudanças nas aposentadorias e retrocessos em direitos. A campanha de Flávio enfatiza a necessidade de mudança, critica as políticas do governo petista e, em publicações que foram alvo de decisões do TSE, associou Lula ao crime organizado. Também houve controvérsias envolvendo o uso de inteligência artificial, a circulação de conteúdos políticos em canais digitais e ataques a eleitores nas redes sociais.

Não seria correto afirmar que todas as mensagens dos dois lados são equivalentes ou que todas são falsas. Algumas se baseiam em propostas, declarações e registros de governos anteriores; outras envolvem previsões, acusações contestadas ou conteúdos cuja retirada foi determinada pela Justiça Eleitoral. Cada caso precisa ser analisado individualmente, levando em consideração as provas disponíveis e o contexto em que a mensagem foi divulgada.

A discussão sobre a política do medo vai além da disputa entre esquerda e direita. Quando o debate se concentra principalmente no que pode acontecer de ruim caso o adversário vença, propostas concretas e soluções para os problemas do país podem perder espaço. O eleitor precisa distinguir críticas fundamentadas, alertas sustentados por evidências e afirmações que buscam provocar temor sem apresentar provas suficientes.

Até 14 de outubro de 2026, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro mostra que o medo, a promessa de mudança e a tentativa de associar o adversário a riscos sociais ou institucionais ocupam espaço importante na campanha. Cabe ao eleitor verificar os planos de governo, as declarações dos candidatos, os dados oficiais, as decisões judiciais e o histórico das administrações, sem transformar previsões em certezas ou adversários políticos em inimigos.

🔗 Fontes: Folha de S.Paulo / UOL / Tribunal Superior Eleitoral (TSE) / Agência Brasil / CNN Brasil / CartaCapital

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