Juros elevados, dívida pública de R$ 11,1 trilhões e dólar acima de R$ 5,40 colocam em dúvida avaliação de André Esteves sobre economia brasileira


💬 A afirmação de André Esteves, presidente do conselho e sócio sênior do BTG Pactual, de que a economia brasileira está “arrumada em vários dos critérios que não estava ao longo dos últimos 30 anos” merece ser analisada diante dos indicadores que também mostram dificuldades importantes para o país.


Durante um evento do BTG Pactual, Esteves destacou fatores positivos, como as reservas internacionais de aproximadamente US$ 370 bilhões, o desemprego historicamente baixo e o fato de o investimento estrangeiro direto superar o déficit em conta corrente. Entretanto, o próprio banqueiro reconheceu que o crescimento acelerado da dívida pública é um problema que precisa ser enfrentado.

Os números da dívida ajudam a dimensionar esse desafio. Segundo dados do Banco Central divulgados em 29 de outubro, a Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 82,9% do PIB em setembro de 2026, equivalente a R$ 11,1 trilhões. O indicador acumula crescimento de 4,3 pontos percentuais somente neste ano. Nos últimos 12 meses, os juros da dívida consumiram aproximadamente R$ 1,2 trilhão, o equivalente a 8,99% do PIB.

Outro ponto é o custo do crédito. A taxa Selic está em patamar elevado, de 13,75% ao ano, enquanto o próprio debate no mercado financeiro aponta juros reais de longo prazo entre 7% e 8%. Esse cenário encarece empréstimos, financiamentos e investimentos, além de aumentar o peso dos juros sobre as contas públicas.

O dólar também pressiona o orçamento das famílias e das empresas. No pregão desta sexta-feira (30/10), a moeda americana superou R$ 5,40, chegando a R$ 5,436 durante a sessão. Uma cotação elevada pode encarecer produtos importados, combustíveis, insumos industriais e outros itens que sofrem influência do câmbio.

No bolso do trabalhador, os dados sobre alimentação mostram que a sensação de aperto não é apenas impressão. Em setembro, a cesta básica ficou mais cara nas 27 capitais pesquisadas pelo DIEESE e pela Conab. Em Fortaleza, o aumento acumulado em 12 meses foi de 15,14%. O DIEESE estimou que o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ser de R$ 7.750,01, enquanto o mínimo oficial era de R$ 1.621.

A inflação oficial também voltou a pressionar: o IPCA de setembro foi de 0,82%, acumulando 4,58% em 12 meses, acima do teto de 4,5% da meta. Os alimentos consumidos em casa subiram 0,96% no mês.

É importante reconhecer que o país também apresenta resultados positivos: o desemprego chegou a 5,2% no terceiro trimestre, o menor nível da série histórica do IBGE para esse período. Portanto, não seria correto ignorar os avanços no mercado de trabalho e nas reservas internacionais.

A questão é que uma economia não pode ser considerada plenamente organizada apenas por indicadores favoráveis ao mercado financeiro. Para milhões de brasileiros, a realidade também passa pelo preço dos alimentos, pelo custo do crédito, pelo endividamento público e pela capacidade do salário de pagar as despesas do mês.

A declaração de André Esteves apresenta uma leitura otimista de determinados fundamentos econômicos, mas os números mostram que ainda existem problemas fiscais e sociais expressivos. O próprio reconhecimento do banqueiro sobre a necessidade de enfrentar a dívida pública demonstra que a economia brasileira está longe de ter todos os seus desafios resolvidos.

🔗 Fontes: Folha de S.Paulo / UOL / Banco Central do Brasil / SBT News / Agência Brasil / IBGE / DIEESE / Conab

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