Uma investigação da Polícia Federal revelou um esquema envolvendo possíveis desvios de recursos públicos originados do chamado orçamento secreto, com indícios de obras fantasmas, serviços mal executados e pagamentos suspeitos a agentes públicos em estados do Nordeste. As apurações abrangem emendas parlamentares destinadas a municípios da Bahia, Alagoas, Ceará e Rio Grande do Norte, além de empresas contratadas para obras de infraestrutura que permanecem inacabadas ou sequer foram iniciadas. A reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, acompanhou operações policiais, analisou documentos apreendidos e ouviu relatos de trabalhadores e gestores afetados.
Por ordem do ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), a PF cumpriu nove mandados de busca e apreensão em endereços ligados a um deputado federal em Brasília e na Bahia, além de bloquear R$ 24 milhões em contas de investigados. Paralelamente, a corporação rastreou o fluxo de milhões em emendas parlamentares destinadas a cidades baianas. Recursos vinculados ao deputado Félix Mendonça Júnior (PDT-BA) teriam sido repassados a Boquira (R$ 4 milhões), Ibipitanga (quase R$ 13 milhões) e Paratinga (pouco mais de R$ 8 milhões).
Em junho de 2025, a PF apreendeu documentos e o celular de Marcelo Gomes, assessor do parlamentar, com conversas entre ele e o empresário Evandro Baldino mencionando pagamentos relacionados aos municípios beneficiados. Em uma troca de mensagens, Marcelo pergunta se o pagamento seria por PIX ou “papel”, e Evandro responde detalhando os métodos para cada cidade. Posteriormente, ambos comemoram a chegada dos valores, com referências a “platita” — gíria para dinheiro. Félix Mendonça Júnior negou ter negociado a execução de emendas ou indicado empresas, afirmando colaborar com as investigações. As defesas de Marcelo Gomes e Evandro Baldino não foram localizadas.
O caso se conecta à Operação Overclean, deflagrada em dezembro de 2024, que investigou uma obra inexistente em Campo Formoso, na Bahia: o asfaltamento de uma estrada prometido desde 2021 com recursos de emenda do orçamento secreto, sem autoria identificada. O convênio foi firmado entre a prefeitura e a Codevasf, que exigiu contrapartida municipal de R$ 8 milhões, mas identificou graves inconsistências após fiscalização, interrompendo a obra. Na época, o prefeito era Elmo Nascimento (União), irmão do deputado Elmar Nascimento (União-BA). O então superintendente regional da Codevasf, Miled Cussa Filho, afirmou ter relatado irregularidades ao MPF e à CGU antes de ser demitido. Auditoria da CGU atribuiu os recursos ao deputado Elmar Nascimento, que negou ter destinado emendas à obra.
Trabalhadores também sofreram prejuízos. O caminhoneiro Jaelson Brito, de Campo Formoso, disse ter prestado serviço na obra sem receber, acumulando um prejuízo de R$ 28 mil. A responsável pela obra era a Allpha Pavimentações, cujos proprietários foram presos em dezembro de 2024 no aeroporto de Salvador com malas de dinheiro. Nos últimos quatro anos, a empresa recebeu R$ 67 milhões em recursos federais, majoritariamente do orçamento secreto. Segundo a PF, o esquema da Operação Overclean movimentou cerca de R$ 1,4 bilhão em quatro anos.
Em Rio Largo, Alagoas, quase R$ 100 milhões em emendas foram destinados nos últimos seis anos, mas a cidade ainda enfrenta problemas como falta de saneamento e obras paralisadas. Um exemplo é a Estrada das Canas, pavimentada com R$ 6 milhões de emenda do deputado Arthur Lira (PP-AL), cujo asfalto já apresenta afundamentos. Lira alegou que faltam remoção de postes e conclusão de desapropriações, e que a prefeitura tem R$ 4 milhões reservados para finalizar o serviço. Em Estrela de Alagoas, obras do DNOCS no valor de R$ 25 milhões foram interrompidas após as eleições de 2024, deixando estradas parcialmente feitas. O então prefeito, Aldo Lira (PP), aparece em vídeo agradecendo a Arthur Lira. Este último afirmou que a responsabilidade é do DNOCS.
Ambas as obras foram contratadas com a Construmaster, hoje Vieira Infraestrutura, alvo da operação Fake Road. A PF e a CGU identificaram fraudes, superfaturamento e má execução no Ceará e no Rio Grande do Norte, com prejuízo estimado em R$ 18 milhões. O deputado Robério Monteiro (PDT-CE) teria destinado emendas a municípios governados por seu filho e sua esposa. Ao autorizar a Fake Road, o ministro Flávio Dino destacou o uso de fotos falsas para comprovar a realização de obras, caracterizando a prática como grave irregularidade. Dados do Coaf indicam que o dono da Construmaster transferiu recursos a um irmão do deputado, parte dos quais teria chegado ao parlamentar. Robério Monteiro não foi alvo da operação, negou irregularidades e afirmou que as transferências ao irmão são de natureza comercial, além de atribuir a responsabilidade das obras ao DNOCS.
Desde 2020, o orçamento secreto consumiu cerca de R$ 38 bilhões dos cofres públicos. Embora o STF tenha proibido o mecanismo naquele ano por falta de transparência, parlamentares passaram a utilizar emendas de comissões da Câmara e do Senado, que somaram R$ 8,6 bilhões em 2025 e também enfrentam críticas. Atualmente, a PF busca esclarecer o funcionamento desse sistema e o papel de órgãos como DNOCS e Codevasf, frequentemente citados nos inquéritos. A Codevasf afirmou agir conforme a lei e orientações dos órgãos de controle. O DNOCS declarou que parte dos contratos já foi executada e que desconhece evidências de superfaturamento apontadas pela PF. A Allpha Pavimentações não foi localizada para se manifestar.
➡️ Leia mais no mtnews2026.blogspot.com
🔗 Fonte: brasil247
📱 Siga o @mtnews2026_







