No Brasil, a violência extrema contra mulheres — especialmente o feminicídio — revela uma indiferença estrutural que, segundo a filósofa Judith Butler, caracteriza certas vidas como “não choráveis”: aquelas cuja morte não desencadeia luto coletivo ou revolta significativa.
Essa banalização do sofrimento feminino, particularmente entre homens, expõe mais sobre o funcionamento social do país do que números isolados. Mostra que, para setores da sociedade, a eliminação de mulheres não representa ruptura, mas mero ajuste em um silêncio já consolidado.
O mais inquietante é que os responsáveis por esses crimes não são figuras marginais ou “monstros”, mas frequentemente homens comuns: pais, maridos, colegas de trabalho, vizinhos — indivíduos integrados à vida social que, paradoxalmente, sustentam, ainda que por omissão ou cumplicidade, uma lógica de dominação que desumaniza e, por fim, mata mulheres.
Ninguém está isento dessa reflexão. Inclusive os chamados “homens bons”, que se distanciam dos extremos da violência explícita, mas não questionam o sistema que os beneficia. O feminicídio não surge do nada; é o desfecho de uma trajetória que se alimenta de microagressões, controle, desigualdade e naturalização do poder masculino em espaços cotidianos.
O autor reconhece sua própria posição nesse quadro: como homem negro e heterossexual, cresceu consciente de sua vulnerabilidade ao racismo, mas também foi moldado por padrões patriarcais que valorizam a autoridade masculina — sobretudo em ambientes privados. Ser vítima de uma opressão não o isenta de reproduzir outra.
A questão central permanece: poucos homens examinam o que fazem — ou deixam de fazer — com o privilégio que carregam. A autodefesa comum — “eu não bato, não xingo, não mato” — demonstra uma expectativa mínima de humanidade, quase patética. A verdade incômoda é que a violência persiste também porque muitos homens, mesmo os que se julgam alheios ao problema, optam pelo silêncio, pela neutralidade confortável, enquanto as mulheres continuam morrendo — em nome de uma normalidade que eles ajudam a manter.
Fonte: portalpretonobranco_juazeiro
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