“Se não tiver carne, compra ovo; se não tiver ovo, salada”: fala de Lula reacende crítica sobre custo dos alimentos


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a ser questionado sobre a promessa feita em 2022 de que os brasileiros voltariam a comer picanha. Durante entrevista ao Flow Podcast, na quinta-feira (1º), Lula respondeu: “Se não tiver dinheiro para comprar carne, a gente compra ovo. Se não tem ovo, a gente compra salada.”

A declaração chama atenção porque transforma uma questão de poder de compra em uma simples substituição de alimentos. O problema, porém, é que o brasileiro não deixa de comprar carne porque não sabe que existe ovo ou salada, mas porque precisa fazer o orçamento caber diante dos preços no supermercado.

Os números ajudam a dimensionar essa realidade. Levantamento com dados do IPCA mostra que a alimentação no domicílio acumulou alta de 12,9% nos 44 primeiros meses do atual governo Lula. Desde abril de 2020, a alta acumulada chegou a 60,8%, acima dos 42,7% registrados pelo IPCA geral no mesmo período.

A própria carne continua pesando no bolso. Segundo levantamento da Folha com dados do IPCA, a picanha acumulou alta de 7,8% entre janeiro de 2023 e agosto de 2026. Já o preço médio do quilo de cortes de carne de primeira pesquisados pelo Procon-SP/Dieese chegou a R$ 50,49 em agosto de 2026, contra R$ 42,54 em agosto de 2022.

E não é apenas a picanha. Dados do IBGE mostram que diferentes cortes bovinos também registraram aumentos expressivos em 2026. Na região metropolitana de Porto Alegre, por exemplo, a carne acumulava alta de 7,1% no ano até agosto, enquanto a inflação geral estava em 3,89%; a costela havia subido 12,1%.

O cenário também alcança as proteínas que aparecem como alternativa na declaração presidencial. O mercado de carnes vem enfrentando mudanças na oferta, nas exportações e no ciclo pecuário, fatores que influenciam os preços internos. A própria análise econômica aponta que consumidores pressionados pelos preços acabam migrando para proteínas mais baratas.

É nesse contexto que a fala de Lula ganha peso político. Em 2022, a picanha foi apresentada como símbolo da melhora esperada no poder de compra dos brasileiros. Agora, diante da cobrança sobre aquela promessa, a resposta é que, se não houver dinheiro para carne, o consumidor deve comprar ovo ou salada.

A crítica, portanto, não está em dizer que ovo ou salada não são alimentos. Está em questionar por que uma promessa de aumento do poder de compra terminou sendo respondida com uma orientação para o consumidor simplesmente trocar o que não consegue comprar.

Para milhões de famílias, a discussão não é escolher entre picanha, ovo ou salada. É conseguir pagar alimentação, moradia, energia, transporte e outras despesas básicas com a renda disponível. Quando o preço dos alimentos sobe e o orçamento não acompanha, a substituição deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade.

A frase de Lula ocorre ainda na reta final do primeiro turno das Eleições 2026, recolocando no centro do debate uma promessa que marcou sua campanha anterior e a situação atual dos preços dos alimentos.

Fontes: IBGE / Folha de S.Paulo / Procon-SP / Dieese / Agência Brasil / Flow Podcast / Revista Oeste

📝 Redação

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