Uece iniciará estudo sobre efeitos da cannabis no tratamento de crianças com autismo


Comportamentos como agressividade, agitação e inquietação em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) costumam ser tratados com medicamentos que frequentemente provocam efeitos colaterais. Diante disso, a Universidade Estadual do Ceará (Uece) está organizando um ensaio clínico para avaliar a eficácia e segurança de uma formulação à base de cannabis, rica em canabidiol (CBD) e com baixo teor de tetraidrocanabinol (THC), no manejo desses sintomas disruptivos em crianças autistas.

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A pesquisa é conduzida em parceria com a farmacêutica GreenCare Pharma e instituições de ensino de São Paulo. O estudo adota o “padrão-ouro” da metodologia científica: um ensaio duplo-cego, randomizado e controlado por placebo. Segundo revisões feitas pela Uece, embora existam relatos promissores sobre o uso de cannabis no TEA, as evidências atuais são limitadas e baseadas em métodos pouco robustos, o que motivou a realização dessa nova investigação.


O coordenador do estudo, professor Gislei Aragão, do Instituto Superior de Ciências Biomédicas (ISCB) da Uece, explica que o objetivo é gerar conhecimento confiável que auxilie médicos e famílias na tomada de decisões. “Hoje em dia, muitos médicos não prescrevem cannabis por falta de evidência. Um estudo como esse é importantíssimo, inclusive internacionalmente”, afirma. A pesquisa será executada no Ceará pelo Laboratório de Neurociência e Inovação Translacional (Lanit) e pelo Grupo de Pesquisa e Estudos em Neuroinflamação e Neurotoxicologia (Genit).


Participarão do estudo 120 crianças diagnosticadas com TEA nos níveis dois ou três de suporte — graus que indicam maior necessidade de assistência diária. Dessas, 60 serão recrutadas no Ceará pelo Instituto da Primeira Infância (Iprede), e as demais em São Paulo. As crianças serão divididas aleatoriamente em dois grupos: um receberá o óleo à base de CBD e o outro, um placebo. Nem os pesquisadores nem as famílias saberão a qual grupo cada criança pertence, conforme exigido pelo desenho duplo-cego do estudo.


Durante três meses, os participantes receberão doses orais semanais da substância atribuída ao seu grupo e passarão por avaliações clínicas regulares com uma equipe multiprofissional composta por neuropediatras e psiquiatras infantis. Exames laboratoriais serão feitos antes e após o período de intervenção para monitorar possíveis impactos à saúde. A aplicação da medicação está prevista para ocorrer entre o segundo semestre de 2026 e o primeiro semestre de 2027.


As doses serão ajustadas individualmente ao longo das semanas, começando com uma quantidade fixa e sendo tituladas conforme a resposta de cada criança. “Se a pessoa não sentiu nenhum efeito adverso com a dose da primeira semana, a gente aumenta um pouquinho. Vai aumentando gradativamente até chegar em um teto de dose”, detalha Gislei Aragão. A ideia é encontrar o equilíbrio ideal entre eficácia terapêutica e tolerabilidade.


A experiência da cearense Robervania Sousa ilustra o potencial buscado pela pesquisa. Mãe de Allan, de 11 anos, diagnosticado com autismo nível 3 e síndrome de Pitt-Hopkins, ela enfrentou anos de tentativas frustradas com até oito medicamentos simultâneos, que apenas sedavam o filho sem resolver os episódios de automutilação e agressividade. Em 2020, conseguiu acesso ao óleo de cannabis por meio de uma associação brasileira. “A partir da primeira gota... no dia seguinte, já foi com mais presença, com um olhar diferente”, conta. Desde então, Allan deixou de se autoagredir e passou a se comunicar com o olhar. Em 2022, Robervania obteve autorização judicial para cultivar maconha e produzir o próprio óleo.


Gislei Aragão destaca que casos como o de Allan reforçam a necessidade de alternativas mais seguras aos antipsicóticos tradicionais, que podem causar insônia, anorexia, hiperatividade, desinibição e hipomania. Embora o uso de cannabis também possa provocar efeitos adversos — como constipação, perda de peso, diarreia e sonolência —, estudos anteriores sugerem que essas reações são geralmente leves. Para o novo ensaio, a expectativa é que os efeitos sejam transitórios e sem gravidade.


Os primeiros resultados do estudo devem ser divulgados em 2027. Caso a formulação se mostre eficaz e segura, há a perspectiva de que seja disponibilizada à população em geral e, futuramente, incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS). A GreenCare Pharma já se comprometeu a fornecer gratuitamente o produto aos participantes, caso o desfecho seja positivo.


Por fim, Gislei reforça que, apesar da esperança depositada na cannabis, o estudo não parte de uma premissa garantida de sucesso. “Não há certeza de que esses efeitos benéficos serão encontrados”, diz. Contudo, independentemente do resultado, a pesquisa contribuirá para ampliar o conhecimento científico sobre o tema, ainda carente de evidências sólidas.


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🔗 Fonte: DN

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